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ALEXANDRE REIGADA

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Nacimiento: 1971 en Manica, Mozambique
Residencia: Reside en Lisboa, Portugal
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Publicada el 26 oct de 2018      Vista 29 veces

Descripción del Artista

Artista independente, com trabalho multifacetado que integra a poesia, a pintura e o vídeo. Obra marcada por um estilo figurativo que combina a imagem e a palavra, e invoca a tradição artística e artesanal portuguesa, a cultura popular e erudita, o azulejo, o ex-voto, o folclore. O mundo todo é o seu tema. O artista recupera estes meios e introduz-lhes novas variáveis ao nível do discurso e da gramática cénica, criando composições estratificadas que cruzam o urbano com o rural. A existência de uma base narrativa assume um papel primordial em todo o seu trabalho, que quase sempre nos conta uma história. Estamos perante uma obra com fortes propriedades comunicativas, de traço primitivo moderno, que se recentra no Homem e na sua condição expressa no quotidiano. na transmissão entre o ético e o estético. “Na minha pintura tudo é lúcido. Não há neurose, não há obsessão, não há psicanálise, não há nada daquilo que é tão caro à arte contemporânea: Não pretendo perturbar, nem chocar, quero questionar e compreender. A minha pintura é rara, mas não é estranha, é misteriosa, mas não é enigmática. Interessa-me a ordem e a razão , a experiência e, a realidade, a história e a tradição, interessa-me a síntese e a inteligência.” “O que eu vejo é que todos vêem ou podem ver. a minha alma não está atormentada, está apaziguada. As imagens emergem da consciência e da experiência. É o olhar que completa o quadro, que define a narrativa.” A pintura apresenta múltiplos níveis de realidade, planos justapostos separados por linhas negras A profundidade espacial é sugerida no interior de cada plano.” Como indivíduo, enquanto ser social, o artista sente ter uma missão e uma função a cumprir, tendo disso um elevado grau de consciência. A sua obra quer cumprir esse desígnio. Reconhece a História como manifestação temporal e actua como agente interpretativo de uma dinâmica que se torna inteligível à luz de certos pontos de referência. O artista movimenta-se por diferentes dimensões. o biográfico, o fragmentário, o efémero e o imutável, o múltiplo e o relativo, o simbólico, o misterioso, o escatológico e transcendente, o mito e a lenda. Se o homem constrói o seu mundo a partir da aparência, pretende o artista repor o mundo através da experiência. As pinturas são compósitos de planos, reunidos sob a designação de “Artefactos”. oriundos de diversas fontes, sobre os mais variados temas narrativas sobre a identidade e condição do Homem, criações envolvidas sempre por uma atmosfera filosófica e poética. Apresentar algo em partes por forma a transmitir uma sensação de conjunto. Assente num princípio dinâmico de organização plástica e formal dos elementos, mediante um exercício de desdobramento e metáfora, a pintura, tal como o vídeo é marcado pela introdução do insólito. As imagens em articulação permitem que diferentes camadas tipo se insinuem, que surja um enredo de associação de ideias ou conceitos, automatismos mentais, e de conexões espontâneas. Um espaço dramático, de representação/simulação, A composição respeita as disposições clássicas referentes à firmeza, ao equilíbrio, à robustez, á harmonia. Os objectos buscam a sua dinâmica interior, procuram o ritmo e o encadeamento formal para uma fluidez discursiva. Mas este esquema é confrontado com a provocação Dada, com a interpelação do inusitado ou a ilustração do gag. Trata-se de uma oficina artística que privilegia os instrumentos do real, integrado num sistema ficcional que mais do que ilustrar pretende pôr à prova uma certa teoria, ideia e sua reverberação. Estes universos organizados, obedecem um sistema, lá não é a desordem formal da arte pop. Panóplia de imagens. composição em quadricula, entronca na tradição retabular da pintyra religiosa. A escolha dos sucessivos elementos é um processo em cadeia: um signo conduz a outro. A obra de arte repousa sobre uma dinâmica que se estabelece entre a originalidade e a inteligibilidade, uma articulação subtil entre o esperado e o inesperado, O valor global de uma pintura depende da soma ou articulação de diferentes níveis, cada um com um valor particular. A pintura é um trabalho artesanal, daí o seu valor. Estilo é repetição, seja nos formatos, seja nos conteúdos. Salão do Vazio e do Concerto do Silêncio. A palavra-chave para a compreensão da sua obra é. síntese. Não seguindo escola alguma, a sua obra não é estanque nem se movimento no escuro. Crê sobretudo no intelecto e na sua conexão com o sensível. Ecce Homo. Interessam ao artista questões como o coleccionismo, a catalogação, a inventariação dos objectos e dos fenómenos, a organização e criação de sistemas imagéticos. Conserva a tradição naturalista e decorativa portuguesa, Colhe lições de diferentes proveniências, ora simplifica a forma ora adensa o discurso. A escultura iconográfica de Francisco Franco e a forma emocional de Soares dos Reis, a problemática da singularidade/universalidade na física, o espaço ambíguo definido por José Augusto França. Numa imagem única, surgem mundos paralelos, A arte do fragmento, da observação comparada. Na pintura, se o artista não o revelar por qualquer forma ou artifício, não se sabe distinguir entre uma flor natural e uma flor de plástico, não se sabe qual a sua matéria. Estruturas geométricas em forma de quadrícula, grelha arqueológica estratificada, onde introduz uma série de enredos, signos e sinais, pictogramas, símbolos, textos, colagens, palavras, pequenos objectos, distintos materiais plásticos, transparências e texturas, figuras e objectos, Neste cenário onde Deus escreve certo, mas por linhas tortas - as suas linhas rudes, oblíquas, com arestas e assimetria, sem nunca se cruzarem - inscreve a sua memória e a do mundo. Esta imagem emparcelada evoca os campos do Minho e Trás-os-Montes, da Galiza, onde muros de granito tosco compõem e organizam a paisagem. não apenas um ponto de fuga, mas todas as possíveis numa visão múltipla de horizontes. Trata-se de uma pintura que pretende dizer algo sobre o papel dos homens no seu tempo. Condensação estética, clareza informativa, propriedades comunicacionais, substância metafísica, a filosofia que se cruza com a experiência quotidiana A figuração é de tipo esquemático. Ideia fundamental para a sua pintura consiste na transposição de uma sala com conceitos museográficos do século XIX para um único plano unificado, no qual se inscreve uma multiplicidade de visões. Outros nexos. o palimpsesto, a panóplia. a Operetta, a narrativa total. Esta arte fala sobre o eterno retorno, a moral, os imperativos categóricos e o sagrado e o profano, a consciência e a ciência, os fenómenos físicos e metafísicos, a História enquanto sistema de ordenação, a política e a condição humana, os universos possíveis de Richard Feynman, o tempo interior de Henri Bergson. No interior de cada pintura se estabelece um processo de ajustamentos, rupturas e continuidades. Espaço aberto ao objecto e ao processo, ao conceito e à matéria, uma arte combinada, múltipla, do mixed media; com enfoque na alteração das relações tradicionais entre signo e significado, na conexão entre a arte e a vida, na introdução da festa e da oralidade, na teatralização e na criação de espaços lúdicos. Uma tentativa de atingir um determinado sincretismo entre os diferentes tipos de imagens, uma contaminação capaz de violar as regras estabelecidas, fazendo daí surgir algo de novo. A natural fusão entre uma arte do tempo e uma arte do espaço. Abertura ao mundo, contaminação da arte por factores exteriores. O Figurado Português na gramática do artista. A sátira o teatro da ironia que entronca culturalmente na dramaturgia vicentina das personagens arquétipo. O bestiário do fantástico na figuração popular, a representação de seres nunca observados, fazendo parte do maravilhoso que têm como função servir de contrapeso à regularidade do quotidiano. Figuras híbridas com corpo humano e cabeça de animal (ou o contrário) – a lembrar a estatuária egípcia. O Diabo (que não é o do medo mas o da farsa) é uma figura central. Cria-se um mundo às avessas, Os capitéis decorados das igrejas românicas. Um imaginário que tem raízes em ancestrais memórias visuais da cultura popular, profana, que nos remete para universos do fantástico, do medonhento, do aliciante e tentador, do pecado e do vício, mas também da virtude. A cenografia e os figurinos, adornar e decorar o teatro, o espaço onde se desenrola a acção. Sobre o ex-voto pictórico: O ex-voto, colocado em ermidas, igrejas, capelas, que se oferece a Deus, à Virgem Maria ou a um santo, em cumprimento de um voto (do latim ex voto), segundo promessa, tem, em Portugal, uma das expressões mais ricas nas tábuas, painéis, quadros ou retábulos votivos, a que se atribui ainda a designação de milagres. As narrativas pictóricas neles plasmadas, convocam conhecimentos interdisciplinares, decorrentes da semiologia, da estética, da literatura, da linguística, da etnologia, da sociologia, da religião e da antropologia. Mesmo com as evidentes limitações técnicas, têm uma singularidade estética muito vincada, caracterizando-se pelo realismo de um quotidiano O ex-voto opera uma projecção da realidade individual e social na realidade sobrenatural, Os painéis gratulatórios ou milagres apresentam um funcionamento bidimensional: como imagem e como linguagem verbal. Estamos perante um sistema de comunicação que transfigura o que no real e empírico é sobrenatural e invisível, é transparência reversível: a estampa espelho de um passado-presente que se recorda no acto da visualização. No seu estatismo plástico, estas cenas não existem sem um ritmo narrativo que é ao mesmo tempo celebração do acontecido, O ex-voto iconográfico não desapareceu de todo, como prática, nos nossos dias. Ele tomou novas formas e ampliou o discurso.As tabulae pictae entre os Lusitanos, sobretudo as peças epigráficas eram consagradas ao deus Endovélico. Sobre a Expografia do séc.XIX: Para o olhar moderno, a maneira de expor do séc. XIX é perturbadora, descobre-se um ambiente desnorteante, nas paredes da sala de exposição, as telas disputam espaço e se aglomeram desde o rodapé ao limite do tecto. O papel desempenhado pela moldura foi essencial para o Salão do séc. XIX. A moldura isola cada pintura da sua vizinha, um sistema utilizado com o fim de reforçar as unidades. Para a percepção visual do visitante, a moldura actua como uma forma de segregação, um signo de contraste, cuja função é esclarecer a unidade de cada tela num ambiente tumultuoso, quase sufocante de um espaço parietal totalmente preenchido. Grossas e pesadas, douradas, frisam os limites definidos das ilusões contidas no interior das pinturas. A segurança dada pela delimitação determina toda a experiência em seu interior. A perspectiva encerrada pela moldura é portanto um sistema que limita o espaço ilusório interno do quadro, não permitindo que qualquer continuidade vaze pelas suas bordas. Porém, o olhar moderno, trata de desconstruir esses limites, construindo narrativas contínuas e lineares. Existe aqui uma espécie de painel votivo, numa evocação dos retábulos renascentistas: delimitados mas unificados num todo coerente. Num primeiro momento, o espectador vislumbra, por inteiro, o mosaico de quadros pendurados na parede, não havendo regras de fruição pré-estabelecidas. O visitante é livre para decidir o caminho do seu olhar, de acordo com os seus gostos estéticos e a sua estrutura psicológica. Orientado dita a sua própria percepção, Sobre o Outdoor. Um aspecto importante na comunicação gráfica é o contraste entre os vários elementos utilizados (imagem, texto, linha, textura, etc). Nas quatro melhores combinações apenas temos três cores: o preto, o branco e o amarelo. O texto preto sobre fundo amarelo, o texto preto sobre fundo branco, e o texto amarelo sobre fundo preto, são as combinações mais impactantes. A arte e a farsa O elogio da paródia. A paródia é uma das formas mais importantes da reflexão contemporânea. Poética do absurdo. O elogio da loucura ou o Gag. O Gag é um efeito cómico visual que consiste na inserção de caos na lógica do real Referências e influências: António Oliveira Bernardes, mestre da azulejaria barroca, Fantasia ornamental. Valentim de Almeida, outro grande pintor português de azulejo do período joanino. O azulejo era feito em oficinais de Lisboa, na zona dos Poiais de São Bento, que eu tão bem conheço actualmente. . Paleta cromática vibrante de Eduardo Vianna, e de Amadeo de Souza-Cardoso. Joaquim Rodrigo, pintor, viveu entre 1912 e 1996. Pintura assente num vasto sistema de elementos sígnicos e em processos cognitivos inerentes à narrativa visual e verbal. Domingos Alvarez, pintor português, de estilo nahif. António Pedro, Ernesto de Melo e Castro, ao nível da experimentação da palavra, foram precursores da poesia visual em Portugal. Pedro Proença, pintor contemporâneo, da geração dos anos 80. Joaquin Torres-Garcia, e Anton Patiño, pintores ibero-americanos, Na arte bruta, o primado da serapilheira, do papel, da textura. da colagem. A metafísica. Giorgio di Chirico (1887-1978) e Carlo Carrá (1881-1966), artistas italianos. Pintura metafísica, o retorno aos mitos primordiais, a imagem onírica e o exercício psicanalítico. O kitsch, a iconografia religiosa e mediática, o folclore, o artesanato a escultura de pedra medieval, o trabalho da madeira, os lenços de namorados, os padrões da tapeçaria regional, o linho, as alfaias religiosas e agrícolas, os gigantones e cabeçudos, a cerâmica, a feira como espaço total, universal e transversal. Combinar todos estes elementos desta imagética num plano artístico superior. A criação nunca vem do nada, Absorver o mundo, descrever a ruralidade com tons cosmopolitas. Ser original, criar algo novo a partir do que é antigo. Descontextualizar, colocar em evidência, dispor planos. O mundo, as coisas que ele comporta surgem em formato reticular. Vemos tudo aos quadrados, na televisão, nos jornais, nas revistas, na Internet. Ora em frames, ora em janelas/windows. Num relance, de forma vertiginosa, caótica, num consumo voraz, permanente. Informação. Conhecimento. Reutilização. Vectores da arte nos nossos dias. A religiosidade muito fervorosa no Minho e o pitoresco em seu redor, os “santinhos”, o sentimento pagão que ela transporta, a vertente iconoclasta. A procissão e o desfile, sempre com banda filarmónica a primeira, e os bombos, no segundo. Contrariamente ao espectador que escolhe o filme que vai ver, o telespectador passa frequentemente pela experiência de tropeçar em imagens de que não conhece nem a proveniência, nem o contexto. Esta sensação de estar um pouco perdido – o efeito zapping – face ao que se vê, de já não saber bem como o interpretar, todos nós já a vivemos em frente a uma televisão (representação). A perda de referências face a multiplicidade das grelhas e dos programas-imagens é quotidiana. Tratando-se de uma pintura, um media que tem a particularidade de revelar imagens de todos os géneros, fontes ou momentos históricos, que se compraz em misturá-las, é preciso então construir um sistema estruturante que permita explicar tanto a concepção, a estruturação, como apresentar os conteúdos e os referentes. Encontramos aqui os mundos da televisão, da cultura global transversal, ou seja, o mundo real (objectos e enredos existentes no nosso mundo), o mundo ficcional para o qual o espectador tende a remeter as imagens, e o mundo lúdico do jogo: a imagem diz a verdade ou encena uma ficção? O artista integra esses momentos num estado fugaz, retrabalha-os, numa modelação que amplia ou invés de destruir. Objecto ou documento estético, matéria plástica de um tempo, duplamente segmentado – no seu todo exterior e no seu espaço interior – ele sugere diferentes níveis de leitura e aproximações, lido e relido como uma fonte paleográfica, vestígio-memória do seu tempo e do que nele existe, o modelo figurado e a realidade ela própria, ou outras que existem como materialidade criativa. O divisionismo rectangular e repetitivo do seu espaço, as linhas bem demarcadas, definindo territórios e diferentes planos, organizado com dureza geométrica mondriana, rementem para uma realidade que nos é familiar, na apresentação da notícia-facto, no formato rectangular com que o mundo nos é descrito: pela mundialização do carácter das sociedades e pela globalização do seu âmbito geográfico, pela aproximação dos seus extremos. Porém, essa organização ou proximidade é ilusória, não há imediata linearidade entre os diferentes segmentos narrativos, é uma história ainda descontínua, em construção, por isso também amálgama de factos, de imagens, de registos. Dir-se-ia um zapping ou um travelling num vórtice de imagens referenciais. Nesse tecido visual deambula uma personagem que observa mas não se envolve, espectador passivo de uma realidade longínqua que não o afecta de todo, ou então, actor ele mesmo, como um jogo, uma dinâmica de interpretação, uma figura que está entre o onírico e o concreto. Semelhanças ou ligações entre um passado iconográfico e o presente contemporaneo são variadas e claramente distintas, quer ao nivel da manipulação da iconografia, quer das materialidades históricas em si. A caligrafia gótica, uniformização, a moldura em formato pipeline – para servir a modernidade e a fortuna histórica da obra -, o seu douramento, a veladura de sombra ou antiguidade, a superfície rugosa e escurecida com um brilho anormal, uma paleta cromática que recorda os recursos colorantes de um iluminista medievo, trabalhando no presente e testemunha dele, todo este conjunto hiperboliza as imagens que envolve e as suas narrativas paralelas e dissonantes. Fracturas, ligeiras decomposições, anomalias superficiais e outras alterações orgânicas servem o programa assente na realização anacrónica de um trabalho em suporte pergaminho, marcado pela intervenção temporal e humana deixando marcas da sua passagem ou actuação. Para além do visível, da simples figuração ilustrativa: as fugas, ou seja, o que está ou medeia entre cada uma das superfícies quadrangulares e não se observa ou o que a imagem concentra em si de possibilidades interpretativas. A metaforização dos planos imagéticos de figuração concisa, facilmente reconhecíveis e assimiláveis, transporta para outros conceitos motivados ainda por uma série de transparências, de desenho sobre o desenho, uma constante duplicidade visual. No quadro de um mundo mediático, com pontos imprecisos mas bem detalhados, num contorno bem definido como linha estruturante, a obra cria uma atmosfera difusa, de significado paradoxal ou burlesco. Há algo de oculto e denso nesta luz estilhaçada, no deserto de uma rua iluminada por um candeeiro, em todo um conjunto de desenhos que funcionam como impressão. E outra vez essa figura que também vigia e controla, uma qualquer consciência. Tudo parece calmo, mas algo se engendra. Algo está para acontecer ou se anuncia, e a arte serve aqui como antecipação da vida e dos seus factos, como documento de sentidos múltiplos, entre a fruição e o significado, emergindo do presente e do real para depois mergulhar no futuro e no virtual. Construção de um universo tabular e linear, panóptico, capaz de activar diferentes linguagens e segmentos, no sentido em que os químicos usam este termo para designarem a tendência que os corpos de natureza diferente têm para se unirem. Há como que um despertar hermenêutico ao entrarmos em afinidade com as palavras e as imagens: uma estimulação do sentido pelo sentido. Um puzzle solidamente disposto em colunas, lajeadas de imagens e por texto, encaixadas mas cuja reunião das peças não permite ver uma figura global. Este encerramento à Mondrian é quebrado quando a polissemia das imagens tece laços, é colocada em sinergia. É o chamado efeito Kulechov, um dos eixos/processos estruturantes da estética do artista, ao qual recorre quer na pintura quer no video. Os surrealistas falavam de campos magnéticos e vasos comunicantes para qualificarem esta qualidade do encontro insólito. O artista introduz na pintura o modelo das imagens interactivas. A imagem passa do estatuto do visível para o legível. O espectador vê apenas um fragmento, nunca a totalidade. Se quiser explorar todas as potencialidades da imagem tem que aprender a ler, mais do que a vê-la. Tem por isso um carácter incompleto. Dá-nos um momento, não o seu todo. Mostra apenas um estado, num momento X. Temos que clicar sobre a imagem para aceder ao seu conteúdo. O processo passa a descrever-se. A pintura oferece dois níveis de leitura: o primeiro nível consiste em ler a informação exibida, constituída por uma montagem de diferentes quadros temáticos e conteúdos distintos. O acesso ao segundo nível é feito quando o espectador “clica” sobre o quadro. A imagem aguarda uma intervenção da nossa parte para eventualmente animar as suas formas. Existe como que uma latência, uma suspensão. Escusado será dizer que o processo é mental, não mensurável, dependendo a qualidade e variedade da transmissão estética e informativa do nível de conhecimento e abstracção do espectador. Cada imagem-quadro convida a reflectir, a decidir sobre o seu percurso. Podemos evocar a imagem-tempo de Gilles Deleuze, deixando esta de ser apenas acção para ser sentido. Se as misturarmos e integrarmos num discurso podemos obter todo o tipo de resultados a partir de um reportório dado previamente, como um menu de um ecrã. Tudo aqui convida à interacção. Sem acção da parte do espectador, o ponto de vista é fixo e a narrativa não avança. A imagem torna-se então um espaço de linguagem que inclui movimento e fluxo, um processo de acções-transformações contínuas, desde que seja essa interacção dupla: entre as imagens, entre nós e a imagem. De imagem-objecto passa a imagem ambiente. Participamos na construção ou reconstrução da imagem que ora está actuante, ora é desactivada. Tratam-se de visões férteis e fecundas que evoluem de parâmetros que escapam da escolha-contexto inicial programada. As partes aglutinam-se até se encadearem sendo que um só quadro possibilita por si sóvárias cadeias associativas. O artista exemplica, põe à prova noções de Roland Barthes, Gilles Deleuze e Paul Watzlawick. A noção de mutação poética, “quando se passa da função real para o espectáculo”, num jogo de formações, deformações e transformações da informação. A noção de desterritorialização, a partir de contextos e imaginários contemporâneos ou hipotéticas, na sequência de Rimbaud, procede a um desregramento, a uma expatriação sistemática. Trata-se do processo de libertação de um conteúdo ou de um código para constituir linhas de fuga. A noção de linguagem da mudança na qual encontramos um enorme potencial de significados mercê de diversos processos de conexão entre os diferentes quadros, pela ancoragem, também a existência de um ponto de fixação, o relé, onde um fragmento de texto-imagem acciona uma relação complementar com os outros, ou o escoramento, no qual a imagem tem uma preponderância sobre o texto. Mediante estes mecanismos, estabelece-se um quadro de cooperação que unifica o que está originalmente fragmentado. Os quadros representam um mundo próximo do imaginário do autor, numa construção dinâmica de raíz fílmica. Transitamos numa realidade deslocalizada que perdeu o seu território integrador, feita de não-lugares. Nada impede o artista de inscrever lugares, objectos ou personagens reais nas suas imagens ficcionais. Oferece-nos em diferentes profundidades e estreitamentos, a possibilidade de mistura entre o mundo real e o mundo sensível da expressão. Mas estes cenários também possuem propriedades de auto-sustentação e dinamização interior. Introduzida a noção de espaço aberto para caracterizar os nexos físicos, psicológicos, representacionais e narrativos. Os lugares representados tornam-se lugares de errância, metáfora do próprio artista que se movimenta e transita entre uma triplice realidade, num triângulo cujos vértices estão em Lisboa, em Ponte de Lima, e em Berlim, lugares potenciais, espaços vividos ou de ficção que integram o real, mas também se libertam da sua materialidade específica para adquirirem propriedades de universalidade funcional. É um quadro-sistema, como janelas abertas sobre o mundo, zona de exibição de dados em simultâneo num equilíbrio compensatório entre volume de informação e entendimento sensível. Integra-se o texto na imagem, as sequências animam as imagens entre si. Encontramos aqui uma metáfora já utilizada por Gilles Deleuze: plataforma e informação onde se inscrevem elementos que se reorganizam de forma perpétua.O espectador, tal como em frente a um ecrã de televisão ou de um menu informático, tem assim a ilusão de se movimentar num espaço a três dimensões, podendo intervir na modificação/recomposição dos espaços/cenários visitados. É o espectador quem escolhe um trajecto através de indicações visuais prévias.Trata-se de um espaço multi-celular, onde cada célula-quadro encontra simbioses com os restantes e assim se animam, gerando um enredo multi-significante. Com o olhar, podemos fazer movimentos ascensioniais, oblíquos, paralelos, descendentes, sem que se destrua a unidade narrativa e gerando um forte dinamismo.O campo representado não é absoluto e evolui em função das interacções que se estabelecem entre as imagens entre si, entre nós e as imagens,num constante deslocamento a acção. Trata-se de um território em permanente construção. A pintura oferece uma sensação de imersão na imagem pela associação de uma visão estereoscópica. Surgem várias janelas de exibição que permitem mostrar em simultâneo diferentes cenas, gerando uma multiplicidade de centros, que são activados e desactivados à medida que percorremos e tacteamos a superfície sob a influência de uma força atractiva que nos impele para o interior. O programa impõe à pintura, testando-o, o modelo da organização espacial da imagem digital graças a vários processos de tratamento: rotação,corte, mudança de escala, ângulo de visão, sobreposição e abertura de sobre-conjuntos, transferência para outros contextos. Surgem vários níveis de pormenores, funções de zoom ou de focalização, visualização do contexto de conjunto. O artista manipula a representação gráfica dos objectos e das figuras, criando uma narrativa plástica, móvel, num universo simbiótico. A expressão pode chegar à transparência, à oposição múltipla num efeito de camadas textuais, ao alto-contraste no discurso e/ou na forma. O olhar não é totalmente abolido, mas movimenta-se entre os cenários propostos previamente pelo artista. O olhar, dadas as diferentes possibilidades de leitura/acção torna-se multiforme.

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el 13 nov de 2018 por ALEXANDRE REIGADA

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