Simulabor
Evento finalizado
22
sep 2017
04
nov 2017

Compártelo en redes

Cuándo: 22 sep de 2017 - 04 nov de 2017
Inauguración: 22 sep de 2017 / 19:00
Precio: Entrada gratuita
Dónde: Galeria Graça Brandão / Rua dos Caetanos, 26 (Bairro Alto) / Lisboa, Portugal
Organizada por: Galeria Graça Brandão
Artistas participantes: Cristina Regadas, José Almeida Pereira, Max Fernandes
Enlaces oficiales Web 
Publicada el 04 oct de 2017      Vista 20 veces

Descripción de la Exposición

Trabalhar o pensamento para formalizar a dúvida Permitam-me que partilhe aqui dois episódios da minha vida profissional antes de abordar de modo mais direto a exposição do José Almeida Pereira. O primeiro passou-se há mais de vinte anos. Uma instituição museológica nacional convidou-me para escrever notas biográficas sobre mais de cinquenta artistas do século XX para um catálogo seu. De Picasso a Rothko, de Vieira da Silva a Warhol, a tarefa acabou por se revelar hercúlea, pois resumir numa página a vida de um autor ao mesmo tempo que se esboça um laivo de comentário histórico-crítico sobre o respetivo percurso é, na verdade, um exercício de rigor e concisão muito difícil. O museu não sabia bem como quantificar o valor desse trabalho e disse-me para ser eu a propor os honorários. Inocente, cobrei uma quantia que olhando para trás era verdadeiramente ridícula face à quantidade de trabalho que tinha tido. Pasme-se com este detalhe: vim a saber mais tarde que o tradutor desses meus textos cobrou mais do que eu! Neste mundo desregulado da cultura os artistas e os autores não sabem, definitivamente, defender-se. Já os tradutores, por exemplo (e já agora os designers gráficos) são muito mais assertivos no modo como tabelam os seus preços – daí também já me ter acontecido ter sido pago menos de que o designer de uma publicação de uma exposição da qual fui comissário (e tenho a certeza de que isto já se passou com outros colegas meus). Segundo episódio: quando fui diretor do CGAC, em Santiago de Compostela, comissariei uma exposição intitulada 93, com mais de cem artistas internacionais. Para a sua montagem vieram vários assistentes de artistas muito famosos montar as respetivas obras. A certa altura, estava numa das salas de exposição e olhei para duas pessoas a trabalhar. Um era o assistente de um artista que tinha vindo mediante uma tabela de honorários que o estúdio desse artista tinha fixado (e que, diga-se, eram bem generosos...). Ao lado, um artista inglês meu amigo suava a refazer uma espécie de pintura mural de 1993. De repente gelei, pois apercebi-me que por esse trabalho não estávamos a pagar nada, para além dos habituais per diems, viagens e acomodação. Ou seja, uma situação surreal, que imediatamente tive de corrigir, não sem antes que os burocratas financeiros que geriam o dinheiro do museu esperneassem violentamente. Ou seja, admite-se mais facilmente pagar a um “técnico” que trabalha para um artista, do que ao próprio artista. Servem estes dois episódios para ilustrar uma das questões centrais na atual proposta expositiva de José Almeida Pereira. Distópica e complexa nos seus pressupostos, a proposta conduz o espectador em direções à primeira vista incongruentes. A pintura deste autor reinterpreta momentos diversificados da história da arte, com estratégias formais distintas e cuidadosamente articuladas. Na referência a obras de Tiziano (Sísifo, 1548-49), Vermeer (A Leiteira, c. 1657-58) e Millet (As Respigadoras, 1857), o artista escolhe com precisão temas que se associam à questão da representação do trabalho, tanto na sua vertente pragmática, como mitológica. A oscilação entre essas realidades ecoa no modo como as pinturas são reinterpretadas, naquele que tem vindo a ser um idiossincrático modus operandi, isto é, num desfasamento associável à representação 3D, onde a profundidade só seria apreendida com os respetivos óculos. O efeito hipnótico conseguido é um contundente comentário sobre o modo como hoje em dia rececionamos as imagens, na maior parte das vezes num segundo grau distanciador e enganador. Na qualidade exímia desta pintura pressentem-se horas e horas de trabalho de precisão extenuante. Assim, tema e forma fundem-se num magma conceptual que se ancora enquanto exercício crítico sobre o próprio ato de pintar. Já nas obras sobre vidro, José Almeida Pereira remete para as formas do primeiro modernismo, nomeadamente da pintura engajada do período revolucionário russo. Aqui a serialidade, a rarefação geométrica e formal remetem para a busca de universalidade de uma linguagem substitutiva de velhos e anacrónicos códigos representacionais que se identificariam com o “antigo regime”. O nivelamento da prática artística enquanto responsabilidade coletiva correspondia à descoberta de um vocabulário totalmente novo, ao qual a sociedade responderia com um novo modo de habitar o mundo, com uma mudança de paradigmas comportamentais, políticos e sociais. Todos sabemos como acaba a história: as preocupações propagandísticas eram demasiado urgentes para que a assimilação desse novo vocabulário visual se tivesse verdadeiramente podido impor. O realismo socialista correspondeu ao reverso abjeto da utopia vanguardista. Ficou, no entanto, esse lastro utópico (mais tarde tentado na germânica Bauhaus) de uma equivalência das disciplinas artísticas, na imersão qualitativa e quantitativa dessas propostas no quotidiano. Ao referir estes momentos históricos José Almeida Pereira questiona não só o valor associável ao trabalho artístico, como também o valor que esse trabalho detém no seio de conjunturas histórica, social e geograficamente definidas, nomeadamente na sua receção e no seu valor-uso. A opacidade na aferição destes parâmetros é aquilo que define a nossa civilização ocidental, moderna e contemporânea. O grande problema é que aqui não existe um exterior. Seja marginal, seja herói reclamava o artista brasileiro Hélio Oiticica numa obra de 1968. Tarefa tão impossível quanto desejável nos nossos dias, dir-se-ia. No entanto, acabam por ser refrescantes os momentos em que somos obrigados a olhar-nos no espelho e sentir que a imagem devolvida não corresponde a um reconhecimento pacificado. É esse o maior mérito de José Almeida Pereira. Num segmento adicional da exposição, este orquestrador de situações, como me apetece descrevê-lo, convidou dois artistas a colaborarem na sua proposta. Índice de uma troca simbólica alternativa ao “pagamento” convencional, nele se aduzem elementos de estranheza vital que acabam por reverberar no leitmotiv que subterraneamente percorre a mostra. A escultura de Cristina Regadas não só parece fantasmagoricamente materializar a pedra que Sísifo punitivamente carrega, como remete para uma estratificação paleontológica que condensa diversos materiais associáveis a vários tipos de trabalho, sendo o cimento, material moderno por excelência, o aglutinador. Já nos vídeos de Max Fernandes o curto-circuito entre a imagem manipulada, a escrita e a manualidade do desenho sobre um fluxo imagético filmado no seu atelier, num dos vídeos, e as síncopes soporíficas ou ativadoras de um estado de transe no outro registo, acabam por igualmente referir o estado “fordiano” da produção, mesmo que a artística, por mais que se disfarce de unicidade, intemporalidade e se valide por via da autoria. José Almeida Pereira sabe que facilmente poderia singrar numa economia de mercado por via das suas qualificações e dotes técnicos. Esperemos que nunca veja F for Fake de Orson Welles, caso contrário até se poderia entusiasmar com a glamorosa vida de falsificador profissional de sucesso. Felizmente para nós escolheu a via da dúvida e da inquietude. É sempre preferível um rebelde a um acomodado. Dá mais trabalho, a ele e a quem observa, certamente, mas essa é uma urgência contemporânea. Miguel von Hafe Pérez

Actualizado

el 30 nov de 2017 por ARTEINFORMADO

Contactar

¿Quieres contactar con el gestor de la ficha?

Descubre más obras en ARTEINFORMADO

INMEMORIAM I, 2016
Augusto Moreno
"Estamos aquí", 2016
Vicent Segarra
Rio De Janeiro, 2012
Rosa De Luca
Compártelo en redes

¡En promoción!

05 dic de 2017 - 15 abr de 2018

El arte y el espacio

Museo Guggenheim Bilbao / Bilbao, Vizcaya, España

ArtCity

Descárgate ArtCity, la app que te dice que exposiciones tienes cerca.

Más información

¡Suscríbase y reciba regularmente nuestro Boletín de Noticias del Mercado del Arte!

Suscribirme
volver arriba